São Francisco de Assis

São Francisco de Assis

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Capítulo 4. Como o anjo fez uma pergunta a Frei Elias, guardião de um convento do vale de Espoleto, e porque Frei Elias lhe respondeu com soberba, partiu e seguiu o caminho de Santiago, onde encontrou Frei Bernardo e lhe contou esta história.

No princípio e fundação da Ordem, quando havia poucos irmãos e
não havia conventos estabelecidos, S. Francisco, por devoção, se
foi a Santiago de Galícia, e levou consigo alguns irmãos, entre os
quais um foi Frei Bernardo; e seguindo assim juntos pelo caminho,
acharam numa terra um pobre enfermo, do qual tendo compaixão,
disse a Frei Bernardo: "Filho, quero que fiques aqui servindo a este
enfermo"; e Frei Bernardo, ajoelhando-se humildemente e inclinando
a cabeça, recebeu a obediência do santo pai e ficou naquele lugar; e
S. Francisco com os outros companheiros foi a Santiago.

Ali ficando reunidos e estando de noite em oração na igreja de
Santiago, foi por Deus revelado a S. Francisco que ele devia fundar
muitos conventos pelo mundo; porque sua Ordem se devia dilatar e
crescer em grande multidão de frades; e por esta revelação
começou S. Francisco a estabelecer conventos naquela região.

E, voltando S. Francisco pelo mesmo caminho, encontrou Frei
Bernardo mais o enfermo com o qual o havia deixado, e que estava
inteiramente curado. E no ano seguinte permitiu a Frei Bernardo que
fosse a Santiago; e assim S. Francisco voltou ao vale de Espoleto; e
aí ficaram em lugar deserto ele e Frei Masseo e Frei Elias e alguns
outros, os quais tinham muito cuidado em não aborrecer ou
perturbar S. Francisco em sua oração; e isto faziam pela grande
reverência que tinham e porque sabiam que Deus lhe revelava
grandes coisas na oração. Sucedeu um dia que, estando S.
Francisco em oração na floresta, um belo jovem, com trajo de
peregrino, chegou à porta do convento e bateu com tanta pressa e
tanta força por tanto tempo que os frades ficaram muito
maravilhados daquele inusitado modo de bater.

Frei Masseo foi à porta e abriu-a e disse àquele jovem: "De onde
vens tu, filho, que parece nunca teres vindo aqui, batendo de modo
tão desusado?" Respondeu o jovem: "E como é que se deve bater?"
Disse Frei Masseo: "Bate três vezes, uma após outra, devagar:
depois espera que o irmão tenha rezado um pai-nosso e venha abrir, e se durante esse tempo ele não vier, bate; outra vez". Respondeu o
jovem: "Tenho grande pressa, e bati com tanta força, porque tenho
de fazer uma longa viagem, e vim aqui falar com o irmão Francisco;
mas por ele estar agora em contemplação na floresta, não o quero
incomodar.

Vai e manda-me Frei Elias, que lhe quero fazer uma pergunta, porque
sei que' ele é muito sábio". Foi Frei Masseo e disse a Frei Elias que
sé dirigisse àquele jovem: e ele se escandalizou e não quis ir; assim
Frei Masseo não soube o que fazer nem o que responder àquele
jovem; que, se dissesse: "Frei Elias não pode vir", mentia; se
dissesse que ele estava irritado e não queria vir, temia dar-lhe mau
exemplo.

E porque no entanto Frei Masseo demorasse em voltar, o jovem
bateu outra vez como a princípio; e pouco depois Frei Masseo
retornou à porta e disse ao jovem: "Não observaste o que te ensinei
ao bateres".

Respondeu o jovem: "Frei Elias não quis vir a mim: vai e dize a Frei
Francisco que vim para falar com ele; mas, por não querer perturbar-lhe
a oração, dize-lhe que mande Frei Elias entender-se comigo".
Então Frei Masseo foi ter com S. Francisco, que orava na floresta
com a face erguida para o céu, e lhe deu conta da embaixada do
jovem e a resposta de Frei Elias: e este jovem era um anjo de Deus,
em forma humana.

Então S. Francisco, sem mudar de lugar nem baixar o rosto, disse a
Frei Masseo: "Vai e dize a Frei Elias que por obediência atenda
imediatamente ao jovem".

Ouvindo Frei Elias a ordem de S. Francisco, foi à porta muito
perturbado e com grande ímpeto e ruído a abriu e disse ao jovem:
"Que queres?" Respondeu o jovem: "Cuidado, irmão, não te irrites,
como pareces estar, porque a ira tolhe o espírito e não te deixa
discernir o verdadeiro". Disse Frei Elias: "Dize o que queres de
mim". Respondeu o jovem: "Eu te pergunto se àqueles que
observam o santo Evangelho é lícito comer o que se põe diante
deles, conforme o que disse Cristo aos seus discípulos: e te
pergunto ainda se é lícito a algum homem obrigar a qualquer coisa
contrária à liberdade evangélica".

Respondeu com soberba Frei Elias: "Sei bem disto, mas não te
quero responder; cuida de teus negócios". Disse o jovem: "Saberei
melhor do que tu responder a esta pergunta". Então Frei Elias,
furioso, fechou a porta e retirou-se. Depois começou a pensar nesta
pergunta, a duvidar de si mesmo e não a sabia responder porque era
vigário da Ordem e tinha ordenado e feito uma constituição, contra o
Evangelho e contra a ordem de S. Francisco, de que nenhum frade
da Ordem comesse carne; por isso a dita pergunta era
expressamente contra ele.

Pois, não sabendo explicar por si mesmo e considerando a modéstia
do jovem e porque este dissera saber responder à pergunta melhor
do que ele, volta à porta e abre-a para pedir ao jovem resposta à
pergunta: mas se tinha ido, porque a soberba de Frei Elias não era
digna de falar com o anjo.

Isto feito; S. Francisco, a quem tudo era por Deus revelado, retornou
da floresta e com veemência, em alta voz, repreendeu Frei Elias,
dizendo: "Mal fizeste, Frei Elias soberbo, que expulsaste de nós os
santos anjos que nos vêm ensinar. Digo-te temer muito que a tua
soberba te faça acabar fora da Ordem". E isto sucedeu como S.
Francisco predissera; porque morreu fora da Ordem.

No mesmo dia e à mesma hora em que o anjo partiu, apareceu na
mesma forma a Frei Bernardo, o qual voltava de Santiago e estava à
beira de um grande rio, e saudou-o em sua língua, dizendo: "Deus te
dê a paz, ó bom irmão".

E maravilhando-se muito Frei Bernardo, e considerando a beleza do
jovem e a saudação feita em sua própria língua, com cumprimento
pacifico e semblante alegre perguntou-lhe: "Donde vens tu, bom
moço?" Respondeu o anjo: "Venho do convento onde vive S.
Francisco e fui ali falar com ele; e não pude, porque estava na
floresta contemplando as coisas divinas e não o quis incomodar. E
naquele convento residem Frei Masseo, Frei Egídio e Frei Elias; e
Frei Masseo me ensinou a bater na porta como fazem os irmãos,
mas Frei Elias, por não ter querido responder à questão que lhe
propus, arrependeu-se depois e quis ouvir-me e falar-me e não
pôde". Após estas palavras, disse o anjo a Frei Bernardo: "Por que
não passas à outra margem?" Respondeu Frei Bernardo: "Porque
temo o perigo pela profundidade da água que vejo".

Disse o anjo: "Passemos juntos, não tenhas medo". Tomou-lhe a
mão e, num abrir e fechar de olhos, pô-lo na outra riba do rio.                                                                                             

Agora Frei Bernardo conheceu que ele era anjo de Deus, e, com
grande reverência e gáudio, disse em voz alta: "Ó anjo bendito de
Deus, dize-me como te chamas". Respondeu o anjo: "Por que
perguntas meu nome, o qual é maravilhoso?" E dizendo assim o
anjo desapareceu e deixou Frei Bernardo muito consolado, de tal
modo que toda aquela viagem fez com alegria, e tomou nota do dia e
da hora em que o anjo lhe aparecera.

E, chegando ao convento onde estava S. Francisco com os
sobreditos companheiros, narra-lhes em ordem todas estas coisas,
e conheceram com certeza que aquele mesmo anjo tinha aparecido
no mesmo dia e na mesma hora a eles e a ele e deram graças a
Deus. Amém.





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